Grupo Imbuaça de Teatro

Mariano Antônio

MARIANO
O Palco Vazio
Cleomar Brandi

O palco vazio sente a ausência do menino-Mariano. Perto do camarim, roupas e adereços silenciam sem vida, inerte no chão. No canto, os estandartes do guerreiro adormecido repousam solenes. Desarvorada, a tribo Imbuaça entoa seus cânticos  de dor, ungem os corpos morenos com a rasgada cor  vermelha das selvas misteriosas colhidas no primeiro clarão da madrugada sem o menino – Mariano.
No alto da Caixa D’água as oficinas de julho aguardam  os neófitos, todas elas já temperadas com o molho da criatividade do guerreiro que foi embora.
Nas portas das casas, esquinas e ruas, terreiros e fazendas, a festa continua, o sanfoneiro puxa o xote, São João já passou, São Pedro bate na porta, as quadrilhas marcam o compasso e o cheiro de pólvora no ar anuncia a chegada dos Bacamarteiros. A Batucada estanciana desce a ladeira e o folguedo popular se espalha pela terra sergipana como se rendesse a última homenagem ao menino-Mariano.
De repente, como se surgisse dos velhos burgos renascentistas, uma pequena troupe de saltimbancos desponta na praça, todos cheios de guirlandas multicoloridas, cada um deles paramentado com as cores das manifestações populares mais tradicionais. No rodopio do bumba-meu-boi todos sorriem e dançam de olho no gingado dos que dançam a Chegança.
Parece até que as meninas de Mestre Euclides estão enfeitadas com fitas novas, compradas ainda ontem no armazém de seu Antonio. E lá vem a Taieira embaraçada com outros que dançam os passos de São Gonçalo. De cada canto da cidade surge um grupo trazendo a sua dança, o seu mimo, suas oferendas populares e a praça vai ficando uma festa só. De longe o que se vê é a transmutação da dor da perda em saudades guardadas.
No meio do povo um menino-nativo rodopia e dança, cadenciado empunhando o estandarte bordado com os fios da dor da ausência do amigo que foi embora.
Deve estar por aí, dançando forró entre nuvens, traquinas que só ele, malinando nas coisas do céu e tentando convencer  arcanjos e querubins a fundar uma filial do Imbuaça nas quebradas das terras de meu Deus. Vai ser uma festança pro lado de lá...

Jornal Folha da Praia
Aracaju,SE 01 a 07 de julho de 1995.


Mais sobre Mariano:

nu e noturnoMariano Antonio Ferreira nasceu em 28 de abril de 1961 na cidade de Aracaju/Se. Filho único do casal Maria Luiza dos Anjos Ferreira e Silvino Mariano Ferreira. Cursou primário e primeiro grau no Grupo Felisbelo Freire e no General Rodrigues Dórea 1961/71. Fez o ginásio no Colégio Presidente Castelo Branco e Colégio Tobias Barreto - 1972/75. Segundo grau/científico, no Colégio Presidente Costa e Silva.  Licenciatura em Letras Português - 1986 e Bacharelado em Ciências Sociais – 1992 na UFS. Professor da disciplina Folclore - UNIT – Aracaju - 1988/90.

Participou como ator em “Inri - O ato da iluminação” e “Original Até Certo” - Grupo Check Up; “Catarse” - Grupo Corpo; “Os Saltimbancos”, “Auto Nordestino de Natal” e “Brefaias” - Grupo Expressionista; “A Rainha Ginoveva no Guerreiro do Cheiroso” e “Maria Língua de Trapo” – Grupo Mamulengo do Cheiroso.

Ingressou no Imbuaça em 1982 onde participou dos espetáculos "Teatro Chamado Cordel"; "Escreveu não leu, cordel comeu"; "Ara(Fala)Caju"; "Velha Roupa Colorida"; "As Irmãs Tenebrosas"; "Nu e Noturno"; "A Farsa dos Opostos"; "Antonio Meu Santo". Dirigiu espetáculos no Grupo Afro Kiriê – Colégio Presidente Costa e Silva, Grupo Caçuá – UFS, Grupo Imbuaça.

Atuou como dançarino no Grupo de dança afro do SESC, “Movimentos” - Academia Iracema Maynard, Grupo Afro Kiriê - Colégio Pres. Costa e Silva, “Guerreiro” - Grupo Caçuá – UFS. Foi professor de teatro no Centro de Criatividade em Aracaju formando novos talentos e dirigiu essa mesma instituição. Faleceu em 24 de junho de 1995.

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