Grupo Imbuaça de Teatro

Lindolfo Amaral entrevista Rodolfo Vasquez

" Ir para Sergipe, ver a luta do grupo resistente e poderoso como o Imbuaça foi uma inspiração. Além disso, a força da cultura popular sergipana, as cores, os sons, a imaginação fértil e as histórias, a gente…tudo isso me inspirou a pensar o teatro de uma forma renovada."

Rodolfo García Vázquez

rodolfoFoto: Bob Souza



1 – Como ocorreu o início do seu trabalho na direção teatral e o que levou a tal escolha?
Eu era gerente de marketing em uma multinacional. Ainda moleque, já tinha plano de carreira e excelente salário. Mas não me sentia confortável. Comecei a fazer um curso técnico de ator mas acabei descobrindo (para o meu próprio bem e do teatro) que eu jamais poderia ser ator. Foi então que tentei me descobrir em outra função no teatro, e ser diretor me pareceu a mais adequada.
 

2 – Você tem um processo específico de trabalho ou depende da dramaturgia?
Eu construo meus processos teatrais um a um. Cada um deles tem sua especifidade, sua singularidade. Já fiz processos em que defini tudo e os atores apenas executaram o que eu imaginava. Outros processos em que tudo veio da equipe e eu apenas organizava. Sou bastante flexivel nesse sentido e acredito que desta forma os processos teatrais sempre são um aprendizado imenso.


3 – Para você “o texto é um bloco de concreto que deve ser lapidado”? E essa questão significa a construção de uma dramaturgia a cada processo de montagem ou o texto não passa por uma reescritura?
Assim como na resposta anterior, acredito que a dramaturgia pode assumir várias formas durante o processo de montagem. Já trabalhei com textos fixos de grandes dramaturgos. Já construí dramaturgias durante o próprio processo da montagem. Geralmente, com textos clássicos ou de dramaturgos que não conheço, costumo ser muito fiel à palavra escrita e recrio o texto na cena. Mas atualmente venho trabalhando muito com um texto em processo.


4 – A instalação do Satyros no centro de São Paulo mudou completamente a região. Como foi esse processo?
Foi um processo até que bastante rápido. Voltamos a São Paulo depois de oito anos vivendo no exterior. Não sabíamos o que nos esperava e ninguém mais nos conhecia. Chegamos quase como imigrantes anônimos na cidade grande, apesar de já termos no currículo passagens pela Inglaterra, Alemanha, França, Espanha e Portugal, entre outros. Lançamos um desafio a nós mesmos: em cinco anos a região teria que estar modificada ou voltaríamos a ser ciganos pelo mundo. A Praça Roosevelt era então uma das mais perigosas regiões da cidade, comparável ao que hoje chamamos de Cracolândia. A transformação foi muito rápida e, apesar das ameaças de morte e dificuldades que enfrentamos, conseguimos fazer dessa região uma das mais destacadas da cena cultural paulistana.
 

5 – Quais as principais ações do Satyros no momento?
Estamos neste momento bastante envolvidos com um projeto chamado “E se fez a Humanidade Cyborg em sete dias”. Tal projeto visa a montagem de 7 espetáculos com temáticas distintas, discutindo os caminhos da humanidade no século XXI, o tempo da revolução tecnológica radical. Além disso, estamos desenvolvendo projetos de cinema que devem começar a dar seus frutos em breve.
 

6 – O seu trabalho é instigante e provocativo. Nesse sentido, como lidar com as questões externas, de ordem policial, por exemplo, que restringe o teatro e as suas funções?
Já fomos perseguidos pela polícia na Escócia, tivemos documentos apreendidos e fomos censurados na Ucrânia. E nosso trabalho sempre enfrentou uma enorme resistência em alguns segmentos teatrais no Brasil. Mas isso nunca nos preocupou de verdade. Sempre fomos fiéis ao que queríamos trazer para os palcos, à nossa necessidade de expressão mais profunda. Somente na franqueza radical do artista com sua obra é que o verdadeiro teatro pode nascer – esse é um dos princípios dos Satyros.
 

7 – Quais os projetos que você tem para o futuro?
Futuramente, estamos pensando em trabalhar mais a transdisciplinaridade artística – algo que tem muito a ver com os Satyros. Estaremos envolvidos com teatro, como sempre estivemos, mas pretendemos abranger outras áreas do fazer artístico, como a performance, a música, o cinema, a literatura, as artes digitais. Os Satyros não vão parar…
 

8 - Como foi a sua experiência no Imbuaça, em Desvalidos?
Eu posso dizer que foi uma das experiências mais ricas que tive como artista. Ir para Sergipe, ver a luta do grupo resistente e poderoso como o Imbuaça foi uma inspiração. Além disso, a força da cultura popular sergipana, as cores, os sons, a imaginação fértil e as histórias, a gente…tudo isso me inspirou a pensar o teatro de uma forma renovada. Foram momentos inesquecíveis ao lado de artistas incríveis que lutam diariamente para valorizar o teatro em um país com tantas dificuldades impostas aos seus artistas. Sim, posso dizer que tive o privilégio de ter trabalhado com o Imbuaça.


Rodolfo García Vázquez


rodolfo e tetêrodolfo no imbuaça

rodolfo na estreia de desvalidosrodolfo no sertão de sergipe

No sentido horário: Com a atriz Tetê Nahas durante sessão de fotos para o espetáculo Desvalidos; Com o ator Luciano Lima (de marrom) e com o figurinista Fábio Namatame; Com o elenco do Imbuaça durante laboratório no sertão sergipano; No jantar da estreia de Desvalidos.

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