Grupo Imbuaça de Teatro

Imbuaça entrevista o potiguar João Marcelino

João MarcelinoNo ano em que celebramos 25 anos de uma parceria que deu certo e rendeu frutos importantes para vida do Imbuaça. No momento em que o grupo lança o seu novo site, nada melhor do que entrevistar o diretor potiguar João Marcelino, referência do teatro brasileiro, responsável por montagens memoráveis, figurinos e adereços impecáveis em várias companhias espalhadas pelo país.



1 – Como se deu a sua formação artística?
O papel e o lápis sempre estiveram presentes em minha vida, desde a primeira infância, assim como as brincadeiras com frascos de perfumes vazios e pilhas Rayovac debaixo da máquina de costura Vigorelli da minha mãe. Brincadeiras que mais tarde eu chamaria de teatro, transformaríam-se em inclinações artisticas. E de tanto observar minha mãe Isaura costurando, bordando, cortando, pintando em casa e cantando e tocando piano na Igreja, encontrei-me um dia diante a mestra da pintura, Natércia Leiros e do aquarelista Alcides Sales.

A primeira manifestação de arte se deu pela pintura, xilogravura, desenho, óleo sobre tela e aquarela, esta última me levou aos figurinos e cenários e o Grupo de Jovens da Pastoral da Juventude de Natal, da Igreja Católica, me levou à cena.
"E agora José?" de Carlos Drummond de Andrade, sobre o palco do Cine Teatro Cometa de Macaíba, deu-me o primeiro aplauso e a confirmação de querer contar histórias.

     
Daí aos estudos de canto com o tenor italiano Nino Crimi se fizeram necessário, bem como os estudos com o mestre Roosevelt Pimenta, no Ballet Municipal de Natal. Assim, sendo observado pelo diretor Costa Filho, da Companhia Manacá de Teatro, fui sendo introduzido no teatro potiguar, pelo personagem Zeca, da peça "Que Mulesta de Vida" num Festival de Teatro Nacional da Confenata no Teatro Taib de São Paulo.

    
Depois vieram as inúmeras Oficinas de interpretação, de maquiagem na Maison Payot e a Escola de Antropologia Teatral de Eugênio Barba quando ele esteve no Brasil pela primeira vez.
Meus mestres foram homens e mulheres que encontrei pela estrada. Minha formação se dá no dia a dia das construções dos espetáculos de dança e teatro, ao lado de inúmeros companheiros que me ajudaram a escrever histórias.


2 – Você atuou em vários espetáculos, por que desistiu de tamanha façanha?
Quando saí de Natal em 1990 para atuar na Companhia Amazém de Teatro, ainda quando era sediada em Londrina, o diretor Paulo de Moraes me coloca diante de novas possibilidades, como ator figurinista e cenógrafo, dando-me maior capacidade de entender a estruturação de uma cena, de um espetáculo.
    
Ao voltar para Natal, retornando à Stabanada Companhia de Repertório, dirigida pelo meu mestre Carlos Nereu, recebi a árdua tarefa de assumir a direção da montagem do texto "Papai Pirou nas Ondas do Rádio", do Guto Greco, pois Carlos Nereu estava se casando e indo morar no Rio de Janeiro.

    
Estava diante da minha primeira direção, assumi a condução  da peça e nunca mais parei. Uma peça depois da outra e já se vão quarenta e seis (46) espetáculos montados. Depois desenvolvi o enorme prazer em colaborar na preparação e colaboração da construção da personagem. Um dia pretendo voltar a atuar!


3 – O seu primeiro trabalho no Imbuaça foi em 1988, na construção dos figurinos e adereços do espetáculo “As Irmãs Tenebrosas”. Quais são as suas lembranças desse trabalho?
Grandes e inesquecíveis lembranças. Cheguei ao Imbuaça assustado, pois era um grupo famoso e que representava o melhor do teatro de rua do país. Assim cheguei e com os atores e atrizes, aprendi muito do ofício, da cultura popular de Sergipe, de como o grupo lidava com a dramaturgia e como parecia fácil encarar o público nas praças e ruas brasileiras e do mundo.
    
Estar com o Imbuaça nessa montagem foi de um aprendizado utilíssimo, pois fui levado a pesquisar com acuidade a nossa cultura e a lançar um diferente olhar sobre as coisas e a vida. Tudo ganhava um novo contorno e significado, pois a experiência daqueles atores me atingia com força e velocidade.

    
Acho que chegou a hora de agradecer publicamente a todos que fazem esse conjunto de artistas e dizer que, indubitavelmente, a produção do Grupo Imbuaça influenciou e continua a influenciar a muitos.


4 – Quem são as suas fontes de inspiração?
Tudo é fonte! Tudo inspira! Das pinturas renascentistas aos pintores surrealistas. Da Odisséia de Homero a poesia do cordelista Antônio Francisco. Em tudo há motivos de inspiração. No entanto, há diretores com os quais costumo dialogar na observação e que representam ricas fontes, como Frederico Fellini e Pier Paolo Pasollini.

    
Há ainda dois autores que foram reveladores e que retorno a eles sempre que necessário, que é Joseph Campbell, que me revelou uma nova  maneira de entender filosofia e mitologia, e, naturalmente, a obra do mestre Luiz da Câmara Cascudo que me abastece e me ajuda a entender as minhas raízes. Tudo está conectado!


5 – Como você tem construído o seu percurso estético? Há uma pesquisa que antecede ou tudo vem do momento, da ação do indivíduo diante de um texto, da provocação do dramaturgo?
Construir um espetáculo é construir um olhar sobre determinado tema ou história e os caminhos para construção se apresentam sempre diferentes, mas costumo levar para uma montagem uma "carta náutica", como garantia, para não ficar à deriva. Levo nas malas meus ancestrais, mestres, memórias, retratos, cartas, chaves e senhas para compartilhar.
    
Depois crio, junto aos atores, o mural da montagem, como um banco de memórias, partindo do princípio de que qualquer ideia, texto ou imagem é um bom pretexto para se preencher um espaço em branco. Mesmo acercado de uma vasta pesquisa, pictórica, filmográfica ou literária, não há garantias pois é com o ator que se dá a mágica do teatro.

    
É na troca que se fecunda! A possibilidade de tocar o pensamento do dramaturgo, dialogar com o ator e conduzí-lo em sua caminhada, misturar tudo e jogar como diretor, como coordenador, maestro de uma orquestra de almas é por demais gratificante e edificante.
A pesquisa e  o momento diante a "esfinge", o texto! A hora do "decífra-me ou devoro-te"! Esse é o grande barato.


6 – Como o homem de teatro tem vivido em uma região onde são poucos os incentivos para as artes cênicas?
Vivo como os deuses consentem! Não tenho muito do que reclamar, pois virou uma rotina trabalhar com orçamentos apertados e ter que colocar grana nas produções para poder realizar sonhos. Se há sempre um elemento limitador, adequar é o verbo conjugado, para que a jornada seja prazerosa.
    
Ainda acho que as políticas públicas brasileiras atendem somente a "corte". Para se obter mudanças na área da cultura, precisaremos de uma mudança radical no sistema político.


7 – E o que estás planejando para o futuro?
Alimento diariamente a minha maleta de sonhos. Há muito o que realizar! Sonhos antigos e recém criados que teimam em bater à minha porta pedindo abrigo, são acolhidos e alimentados.

Tenho utilizado em alguns espetáculos a técnica do cinema, como elemento de composição, e que me faz sonhar como uma estrada a seguir. Investigo com cuidado e experimento com os atores essa linguagem tão fascinante e tenho obtido resultados satisfatórios e dignos de elogios. O primeiro filme que ví, ainda na infância, foi "Marcelino, pão e vinho", um alumbramento, no Cine Teatro Cometa, em Macaíba. Um dia me dedicarei ao cinema com mais ambição. Seja como diretor ou diretor de arte.      
     
Estou com um projeto literário  em construção, onde registro minhas encenações, aquarelas de figurinos e croquís de cenografia. Tenho investido nessa área, para atender a muitos que me procuram querendo conhecer o teatro produzido nas décadas de 1980, 1990 e 2010.
Nessas três décadas, trabalhei com grupos e companhias de teatro de Natal, Mossoró, Londrina, Aracaju, São Paulo, Rio de Janeiro e João Pessoa. Naturalmente, há um pouco da história da produção teatral no Brasil e que eu gostaria de registrar para servir como elemento de pesquisa para gerações futuras.

     
Entre outros planejamentos, ressalto um muito antigo que é construir um espaço de criação, que já tem até nome, onde serviria de ateliê de figurinos e cenários, de sala de ensaios e apresentações, e lá no fundo desse grande espaço estará um mezanino de madeira onde será um lugar para eu morar.
Nesse espaço receberei pessoas que queiram estudar teatro comigo e com os muitos amigos que constroem o teatro brasileiro. Esse espaço será a CAIXA DE SAPATOS!



(Quando criança, João Marcelino guardava vidros de perfumes vazios e pilhas rayovak usadas numa CAIXA DE SAPATOS. A caixa de sapato virava palco, os vidros de perfumes vazios viravam atores e as dezenas de pilhas Rayovak uma imensa plateia)

joão marcelino e lindolfo amaralMaquiando Lindolfo Amaral em 1992 (A Farsa dos Opostos)
.
joão marcelino e kessia mecyaMaquiando Késsia Mecya em 2010 (A Grande Serpente)
.
joão matcelino e isabel santosConferindo a maquiagem de Isabel Santos (A Grande Serpente)joão aniversárioComemorando seu aniversário com o Imbuaça



Página de impressão amigável Enviar esta história par aum amigo Criar um arquvo PDF do artigo
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.
Enviado por Tópico
Rua Muribeca 04 | Bairro Santo Antonio | Aracaju | Sergipe | CEP 49060-470 | Tel. +55 79 3215.3064 | e-mail: grupoimbuaca@gmail.com
CNPJ 13 161 351/0001-26